segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Guerra nada santa

"Numa guerra, a primeira vítima é a verdade" (frase repetida várias vezes pelo meu pai e que só anos mais tarde eu realmente entendi)

Uma amiga me escreveu nesta segunda feira perguntando sobre a veracidade de um e-mail que recebeu. Ele traz um powerpoint que acusa o grupo Hamas de promover casamentos em massa de meninas com homens adultos na Palestina. A acusação de pedofilia é atribuída a um tal de Paul Williams, do site The Last Crusade (nome que já me fez desconfiar da isenção do acusador). Decidi tirar a história a limpo procurando alguém que sabe mais sobre mundo islâmico do que eu, meu colega de mestrado Bruno Mendelski. Com a parcimônia que se espera de um acadêmico sério, ele me respondeu: "até onde eu sei, o Hamas não organiza e nem apoio esse tipo de 'casamento'." Lembrou ainda que a única fonte citada na denúncia, além de blogs pouco conhecidos, é o livro Sahih al Bukhari, obra do século IX que reuniu as tradições então praticadas pelos muçulmanos. Segundo a denúncia do e-mail, este livro seria usado para justificar o casamento com crianças porque ele conta que um dos casamentos de Maomé foi com uma noiva de seis anos de idade.
Eu fiquei me lembrando de coisas que estão na Bíblia, como apedrejamentos e sacrifícios, que hoje nenhum cristão pratica, pelo simples fato de que foram escritas em outros tempos e o mundo mudou. Imagino que o mesmo ocorra com os muçulmanos diante de textos tão antigos.
Lembrei também da campanha que os palestinos estão fazendo para criar o seu estado, sem ficarem atrelados a Israel. Surgiu uma pergunta intrigante na minha mente: se o Hamas promove a pedofilia como dizem, porque o governo americano não fala publicamente sobre isto? Seria um argumento imbatível para colocar a opinião pública mundial contra a criação da Palestina na ONU neste momento.
O e-mail que traz as denúncias contra o Hamas diz que apenas um blog teve coragem de divulgar esta história no Brasil. Minha experiência de 10 anos de Jornalismo ajuda a entender porque: outros jornalistas devem ter recebido o mesmo material e assim como eu, pesquisaram e desconfiaram da veracidade das acusações. A explicação que encontrei pela web é que houve sim um casamento coletivo, mas que as meninas não eram as noivas, mas as damas de honra. A foto não foi montada, mas foi tirada do seu contexto original para contar a história que era mais conveniente para alguém.
Associar o islamismo a coisas reprováveis, como o terrorismo ou desrespeito aos Direitos Humanos, ajudou a justificar muitas ações na política internacional recente (em especial depois do 11 de setembro). Por isso é preciso cuidado com o que lemos e escutamos por aí. A religião tem sido usada numa espécie de guerra ideológica, que nada tem de santa. Cuidado com o santo que tentam te vender, pois ele pode ser do pau oco.
(meu colega Bruno, aliás, brincou que está pensando em espalhar um powerpoint mostrando que a cidade de origem dele tem a melhor qualidade de vida do país. Não é verdade, mas na internet tudo é possível...)

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

A fórmula do fogo

Assim como oxigênio e combustível são ingredientes necessários para fazer fogo, uma massa de desempregados e um mártir fazem incendiar as ruas. É o que vemos esta semana em Londres, depois que um jovem foi morto pela polícia. A fleuma britânica parece ter sido perdida em algum lugar em meio aos destroços dos prédios, atacados por uma massa que, inicialmente, queria protestar contra a violência policial. Mas por trás do quebra-quebra o que há são moradores que sentem os efeitos de um cenário econômico pouco favorável, composto por desemprego, corte de investimentos e crise fiscal de vários governos europeus.
Os anos recentes nos oferecem outros exemplos de como fatos isolados se tornam fagulhas que inflamam uma atmosfera econômica já repleta de incertezas. Poucos lembram, mas a onda de protestos na Grécia iniciou no final de 2008, quando um adolescente de 15 anos foi morto num confronto com a polícia. Novas manifestações se sucederam e, na falta de uma solução para a crise financeira, a disposição da população em reclamar parece ter crescido tanto quanto a desconfiança internacional de que o governo grego vá dar o calote. Há pessoas sem receber salários há meses e até os taxistas fazem greve, num país onde o turismo é uma das principais atividades econômicas.
Foi a morte de um cidadão comum também que iniciou a chamada Primavera Árabe. Um tunisiano, que queria apenas uma licença para vender alimentos nas ruas da capital Túnis, ateou fogo no próprio corpo para expressar sua revolta com a cobrança de propinas. A revolta dele parece ser compartilhada por outros conterrâneos seus. As manifestações populares culminaram na queda do presidente Ben Ali, que governou por 23 anos(!!!).
Não foram poucos os governantes da região que temeram reações semelhantes em seus territórios. Elas de fato ocorreram. Egito, Síria e Líbia ainda buscam o caminho da democracia, mas a violência ainda é uma triste realidade, principalmente para sírios e líbios. A fagulha chegou rapidamente, mas o combate ao incêndio é lento. Mesmo que os confrontos armados terminassem hoje, ainda seria preciso criar condições de governabilidade, em nações onde poucos se arriscavam a fazer oposição e participar do processo político até então.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Tudo muda

- O que você vai ser quando crescer?


Esta é possivelmente uma das perguntas que mais ouvi durante a infância. Aposto que o mesmo se passou com vocês, pois o ser humano dedica bastante tempo a imaginar como será o futuro... e geralmente erra.


Há 20 anos, alguém apostaria que um negro governaria os Estados Unidos, que a economia norteamericana não seria a mais sólida do mundo e que greves constantes assolariam a Europa? Os mercados financeiros registraram repetidas baixas nos últimos dias. Parte da reação está baseada em indicadores e fatos políticos, como a difícil negociação sobre a dívida no congresso dos EUA. Outra parte se deve aos muito otimistas e muito pessimistas: investidores que imaginam o pior cenário possível para a economia mundial daqui para a frente e os que imaginam uma forma de ganhar no meio da crise.


A única certeza nesta hora é que 90% das previsões devem estar erradas. O retrospecto da Política Internacional mostra o quão difícil é dizer com relativa exatidão o que nos espera no mundo dentro de alguns anos. Foi assim na década de 1980: nem os melhores analistas previram a queda do muro de Berlim e a divisão da União Soviética. Mas aquele que tiver a sorte de dar um palpite feliz, que se confirme, pode garantir um lugarzinho no hall da fama dos analistas políticos.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Diferenças e preconceitos

Quem diria três décadas atrás que uma massa de quatro milhões de pessoas tomaria as ruas de São Paulo para celebrar o amor entre pessoas do mesmo sexo com as bençãos do Estado? Em parte, a aceitação é porque a Parada Gay tornou-se um dos maiores eventos turísticos da cidade, movimentando hotéis, restaurantes e casas noturnas, mas também porque parte da sociedade está mudando. Três decisões recentes, uma no Brasil, outra nos Estados Unidos e outra no âmbito das Nações Unidas podem ser sinais de um novo tempo.


A Justiça brasileira reconheceu que relações homoafetivas também podem obter o registro de união estável feito em cartório, como já fazem homens e mulheres. No estado americano de Nova York, os parlamentares acataram o projeto do governador que cria o casamento entre iguais. Já o Conselho de Direitos Humanos da ONU aprovou pela primeira vez uma resolução sobre igualdade, independente de orientação sexual. Em todos os casos, não faltaram é claro manifestações pró e contra as decisões, algumas no limite entre a liberdade de expressão e a grosseria. A decisão do Supremo Tribunal Federal no Brasil foi unânime, mas a situação não se repetiu entre os deputados de Nova York, nem entre os diplomatas do Conselho de Direitos Humanos.


A resolução proposta pela África do Sul teve 23 votos favoráveis, 19 contrários e três abstenções. Não surpreende por se tratar de um tema polêmico e com forte ligação religiosa. A homossexualidade é considerada crime em 76 países, entre os quais podemos citar Uganda, onde desde 2008 (!) é discutida uma lei para aumentar a pena contra gays, que pode chegar à morte. Até agora o projeto não foi votado, mas só o fato de alguém com mandato defende-lo em público deve servir de combustível para muitas perseguições.


E aí podemos tirar lá do baú da memória aquela associação "africanos e atraso", que ouvimos durante anos. Bom, nesse quesito Uganda não se mostra mesmo progressista. Mas como explicar algumas reações do poder público de países desenvolvidos em outros temas de Direitos Humanos? Esta semana descobri que a Austrália adota uma regra pela qual os vistos de entrada permanente e temporária podem ser negados se o solicitante for portador do HIV. Ok, existe preocupação com a saúde pública, mas vai querer me convencer que não existem australianos com HIV? Devo ser uma menina muito ingênua mesmo por não ver maldade no desejo de alguém conhecer outros cantos do mundo.

(e não vamos esquecer que a origem do viajante determina muitas vezes quais exigências são feitas. Geralmente elas aumentam quando o turista vem do mundo em desenvolvimento.)

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Relações (Sexuais) Internacionais

Neste fim de semana, o diretor do FMI e pré candidato às eleições presidenciais na França, Strauss Kahn, foi preso. A acusação é de que teria estuprado uma funcionária do hotel em que se hospedeu em Nova York. Poucas horas depois, outra mulher o acusou de crimes sexuais. Enquanto isso, na Itália, o primeiro-ministro Silvio Berlusconi responde a um processo judicial por fazer sexo com uma prostituta menor de idade. Já o dono do Wikileaks, Julian Assange, é acusado de transar sem usar preservativo, o que é crime na Suécia.


O curioso nestas três histórias é que a principal fonte das críticas aos acusados sempre esteve além do que fazem entre quatro paredes. Quantas vezes militantes de esquerda bradaram contra políticas dos dirigentes do Fundo Monetário Internacional que afetaram países pobres? Quantas suspeitas foram levantadas sobre os negócios do premier italiano? E quanta dor de cabeça as revelações do site Wikileaks trouxeram para o governo americano?


É impressionante ver que quem se envolveu em situações tão complexas seja detido por um dos aspectos mais primitivos do ser humano. Podem ter provocado efeitos desastrosos em economias inteiras, ter feito negócios escusos ou revelado informações privilegiadas com consequências gigantescas, mas caíram pelo sexo. Não quero aqui desmerecer acusações (graves, sem dúvida) de estupro ou abuso de menores, mas tudo isso é um sinal do quanto a nossa sociedade continua puritana. Homens (e mulheres também) são julgados mais pelo que fazem privadamente do que pelo que fazem na vida pública. Parece que a sexualidade de uma personalidade política choca mais do que a guerra.

A prisão de Kahn virou assunto da semana. O apresentador William Waack abriu o noticiário outro dia dizendo que o poder torna as pessoas mais bonitas, mas eu acho que esta frase não se aplica ao (quase ex) presidente do FMI. A camareira que ele teria atacado está traumatizada, o que é bem compreensível. Eu também ficaria horrorizada se visse esse coroa pelado correndo na minha direção, querendo meu corpinho ou minha assinatura num empréstimo que levará até minha alma.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Imagens reveladas

Quem tem mais de 20 anos deve lembrar da fotografia sem tecnologia digital. Tinha que comprar o filme, controlar quantas poses foram batidas e sempre tinha o risco da máquina não puxar o filme ou de algum acidente velar a película. Hoje é só chutar uma pedra e aparece alguém com uma câmera digital, seja aqui ou no Paquistão.

Talvez por isso estejamos tão ansiosos pela imagem de Osama Bin Laden morto. Somos uma sociedade cada vez mais visual. Perdemos a confiança nas palavras, mas geralmente acreditamos no que vemos, mesmo que seja uma reprodução no papel ou na tela do computador (e que o homem já tenha criado o Photoshop). A foto vale por mil palavras, ou pelo menos reduz a adesão a teorias da conspiração sobre uma morte sem corpo.

O governo americano diz que jogou Bin Laden no mar porque não havia país disposto a enterra-lo e que não divulgará imagens da morte porque não gostaria que seus soldados recebessem este tratamento se fossem abatidos em combate. Mas há poucas horas, vazaram as fotos de outros dois homens que teriam morrido na operação na casa do terrorista e já há quem aposte que em breve será possível ver Osama's final shot (ou Obama finally shot him...).

Independente do nome que esta obra possa ter, o fato é que será muito difícil mante-la em segredo em tempos de internet, Wikileaks e celulares dignos de 007 (o dos anos 70, é claro). Para os Estados Unidos, a revelação da verdade pode ser danosa e atiçar alguns radicais interessados em criar um mártir. O silêncio tampouco ajuda: só estimula a imaginação dos desconfiados e coloca em dúvida se a invasão à casa do terrorista no Paquistão realmente ocorreu do jeito que nos contaram. Alguns podem sair com o filme queimado dessa história.

sábado, 23 de abril de 2011

Reestudando a História

Quando eu era pequena, meu pai costumava dizer que o general Pinochet havia desgraçado o dia do meu aniversário.  Em 11 de setembro de 1973, exatamente três anos antes de eu nascer, ele comandou o golpe militar que derrubou o presidente Salvador Allende. O Chile voltou a democracia, mas persistiu a dúvida se o presidente se matou ou foi assassinado quando as tropas entraram no palácio. Agora o governo chileno vai exumar o corpo para determinar a erdadeira causa da morte. É a Amèrica latina em busca da verdade.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Famélicos, iogurtes e o Banco Mundial

Nos anos 80, o mundo voltou os olhos para o problema da fome na África. A mistura de guerras, governos enfraquecidos e secas resultou em multidões de pessoas famélicas, quase um amontoado de ossos cobertos pela pela negra e sem viço. A causa ganhou o apoio de vários artistas, com dezenas de apresentações para arrecadar fundos para alimentar os famintos e a venda de milhões de cópias do disco We are the world. Mas era difícil entender realmente o que era passar fome de verdade. Para meus irmãos e eu, o auge da luta por alimento era convencer os pais a comprar iogurte, item quase de luxo para uma família de classe média. Curiosamente, o iogurte se tornaria um dos símbolos da melhora da economia brasileira e controle da inflação uns dez anos depois. De lá pra cá, o mundo evoluiu mas ainda existem 1 bilhão de famintos pela Terra e outros bilhões que tem sentido o soco no estômago cada vez que vão ao supermercado e esvaziam a carteira. O preço dos alimentos é motivo de preocupação do nosso dia-a-dia e desde 2008, é também do Banco Mundial. A entidade está promovendo o debate nesta quinta e sexta-feira sobre a possível nova crise alimentar e reunindo propostas para manter as cotações em níveis aceitáveis. O banco calcula que a alimentação mais cara colocou mais 44 milhões de pessoas abaixo da linha de pobreza. O slogan do debate é sugestivo: "Put food first". Para o Banco Mundial, a produção de alimentos está ligada ao combate à fome, mas também à geração de empregos e renda nos países em desenvolvimento. É só lembrar que foi a venda de grãos que ajudou a equilibrar a balança comercial brasileira nos últimos anos. Uma das coisas que mais me incomoda na questão alimentar é pensar que pagamos tão caro e os produtores nem sempre ficam com esse lucro todo. Precisamos comida, isso gera demanda por fertilizantes, eles aumentam de preço, a alimentação fica mais cara mas o agricultor não fica necessariamente mais rico. Pra completar, há o risco de alguma intempérie (de furacões a terremotos que destroem usinas nucleares) provocar quebra de safra. Isso deixa muito governante em pânico, afinal o povo de barriga vazia foi personagem das revoluções Francesa e Bolchevique e da revolta dos haitianos em 2009.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Com o brinquedo alheio

Entre as minhas mais antigas lembranças está o Jornal Nacional mostrando um tal de Kadhafi, um tipo de vilão (por motivos que na época eu não entendia). Muitas plásticas depois, nem todas bem sucedidas, o personagem da minha infância continua no mesmo lugar. A diferença é que agora a oposição vem de dentro da Líbia e o mundo ocidental parece não chegar a um consenso de que castigo vai dar para ele. Cortar a sobremesa? Armar os líbios que não gostam dele? Jogar bombas com um avião? A União Africana parece não estar se divertindo muito nessa história e procura negociar a saída dele. Quem sabe o exílio em algum lugar exótico? A palavra de ordem é evitar mais um conflito armado na região (daqueles sem hora para acabar), ainda mais porque a Líbia é das sócias mais ricas da União. Não sei se a parte sobre "negociar a paz" será possível. Essa semana, um soldado de Kadhafi foi fotografado com armas pesadas, de fabricação russa. Não seria incomum numa guerra, não fosse o fato da Rússia garantir que não vendeu este tipo de armamento para a Líbia, mas vendeu para a Venezuela. Parece que o Chavito emprestou alguns de seus brinquedos para o amigo.