"Numa guerra, a primeira vítima é a verdade" (frase repetida várias vezes pelo meu pai e que só anos mais tarde eu realmente entendi)

Uma amiga me escreveu nesta segunda feira perguntando sobre a veracidade de um e-mail que recebeu. Ele traz um powerpoint que acusa o grupo Hamas de promover casamentos em massa de meninas com homens adultos na Palestina. A acusação de pedofilia é atribuída a um tal de Paul Williams, do site The Last Crusade (nome que já me fez desconfiar da isenção do acusador). Decidi tirar a história a limpo procurando alguém que sabe mais sobre mundo islâmico do que eu, meu colega de mestrado Bruno Mendelski. Com a parcimônia que se espera de um acadêmico sério, ele me respondeu: "até onde eu sei, o Hamas não organiza e nem apoio esse tipo de 'casamento'." Lembrou ainda que a única fonte citada na denúncia, além de blogs pouco conhecidos, é o livro Sahih al Bukhari, obra do século IX que reuniu as tradições então praticadas pelos muçulmanos. Segundo a denúncia do e-mail, este livro seria usado para justificar o casamento com crianças porque ele conta que um dos casamentos de Maomé foi com uma noiva de seis anos de idade.
Eu fiquei me lembrando de coisas que estão na Bíblia, como apedrejamentos e sacrifícios, que hoje nenhum cristão pratica, pelo simples fato de que foram escritas em outros tempos e o mundo mudou. Imagino que o mesmo ocorra com os muçulmanos diante de textos tão antigos.
Lembrei também da campanha que os palestinos estão fazendo para criar o seu estado, sem ficarem atrelados a Israel. Surgiu uma pergunta intrigante na minha mente: se o Hamas promove a pedofilia como dizem, porque o governo americano não fala publicamente sobre isto? Seria um argumento imbatível para colocar a opinião pública mundial contra a criação da Palestina na ONU neste momento.
O e-mail que traz as denúncias contra o Hamas diz que apenas um blog teve coragem de divulgar esta história no Brasil. Minha experiência de 10 anos de Jornalismo ajuda a entender porque: outros jornalistas devem ter recebido o mesmo material e assim como eu, pesquisaram e desconfiaram da veracidade das acusações. A explicação que encontrei pela web é que houve sim um casamento coletivo, mas que as meninas não eram as noivas, mas as damas de honra. A foto não foi montada, mas foi tirada do seu contexto original para contar a história que era mais conveniente para alguém.
Associar o islamismo a coisas reprováveis, como o terrorismo ou desrespeito aos Direitos Humanos, ajudou a justificar muitas ações na política internacional recente (em especial depois do 11 de setembro). Por isso é preciso cuidado com o que lemos e escutamos por aí. A religião tem sido usada numa espécie de guerra ideológica, que nada tem de santa. Cuidado com o santo que tentam te vender, pois ele pode ser do pau oco.
(meu colega Bruno, aliás, brincou que está pensando em espalhar um powerpoint mostrando que a cidade de origem dele tem a melhor qualidade de vida do país. Não é verdade, mas na internet tudo é possível...)