Quem diria três décadas atrás que uma massa de quatro milhões de pessoas tomaria as ruas de São Paulo para celebrar o amor entre pessoas do mesmo sexo com as bençãos do Estado? Em parte, a aceitação é porque a Parada Gay tornou-se um dos maiores eventos turísticos da cidade, movimentando hotéis, restaurantes e casas noturnas, mas também porque parte da sociedade está mudando. Três decisões recentes, uma no Brasil, outra nos Estados Unidos e outra no âmbito das Nações Unidas podem ser sinais de um novo tempo.
A Justiça brasileira reconheceu que relações homoafetivas também podem obter o registro de união estável feito em cartório, como já fazem homens e mulheres. No estado americano de Nova York, os parlamentares acataram o projeto do governador que cria o casamento entre iguais. Já o Conselho de Direitos Humanos da ONU aprovou pela primeira vez uma resolução sobre igualdade, independente de orientação sexual. Em todos os casos, não faltaram é claro manifestações pró e contra as decisões, algumas no limite entre a liberdade de expressão e a grosseria. A decisão do Supremo Tribunal Federal no Brasil foi unânime, mas a situação não se repetiu entre os deputados de Nova York, nem entre os diplomatas do Conselho de Direitos Humanos.
A resolução proposta pela África do Sul teve 23 votos favoráveis, 19 contrários e três abstenções. Não surpreende por se tratar de um tema polêmico e com forte ligação religiosa. A homossexualidade é considerada crime em 76 países, entre os quais podemos citar Uganda, onde desde 2008 (!) é discutida uma lei para aumentar a pena contra gays, que pode chegar à morte. Até agora o projeto não foi votado, mas só o fato de alguém com mandato defende-lo em público deve servir de combustível para muitas perseguições.
E aí podemos tirar lá do baú da memória aquela associação "africanos e atraso", que ouvimos durante anos. Bom, nesse quesito Uganda não se mostra mesmo progressista. Mas como explicar algumas reações do poder público de países desenvolvidos em outros temas de Direitos Humanos? Esta semana descobri que a Austrália adota uma regra pela qual os vistos de entrada permanente e temporária podem ser negados se o solicitante for portador do HIV. Ok, existe preocupação com a saúde pública, mas vai querer me convencer que não existem australianos com HIV? Devo ser uma menina muito ingênua mesmo por não ver maldade no desejo de alguém conhecer outros cantos do mundo.
(e não vamos esquecer que a origem do viajante determina muitas vezes quais exigências são feitas. Geralmente elas aumentam quando o turista vem do mundo em desenvolvimento.)
Era uma vez uma menina que brincava e assistia muito noticiário. Ela aprendeu a ler e se transformou numa monstrinha que comia livros. Petrificados por sua cabeça ou talvez enfeitiçados por seu sorriso, os guardiões a deixaram entrar nos castelos do saber. Para acalma-la era só dar-lhe mais livros. Feliz, ela retribui contando histórias e tentando explicar o mundo. Às vezes visto pelos olhos doces de um pequeno príncipe de Exupéry, outras pelos de princesa maquiavélica.
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